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Osteoporose: Prevenção é tudo

 por Conceição Lemes 

 

Osteoporose não é problema apenas de idosos ou só de mulheres. Vários remédios e doenças "roubam" osso, inclusive na infância e na adolescência. E osso perdido não tem retorno. Evitá-la em todas as fases da vida é desafio e dever de todo médico

Organização Mundial de Saúde, OMS, estima: em 2010, o número de homens com mais de 70 anos dobrará, e o de mulheres crescerá 80%. Paralelamente, avançará a osteoporose, já um problema de saúde pública nos países desenvolvidos. Homens não estão livres, mas as mulheres são as principais vítimas: a proporção é de oito por um antes dos 70; depois, três por um. Tanto que a fratura de fêmur osteoporótica é a terceira causa de internação hospitalar e a segunda de óbito entre americanas e européias com mais de 50. No Brasil, há indícios de que seja mais significativa nas regiões Sul e Sudeste, atingindo cerca de 20% a 25% das mulheres pós-menopausadas.
"Apesar de perfeitamente prevenível, isso não tem sido muito valorizado na prática clínica", alerta o dr. Pedro Henrique Correa, do Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, FMUSP. O dr. Gilberto Vieira, professor de Endocrinologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo — EPM/Unifesp — e do Fleury, atesta: às vezes ignoram-se que várias patologias e intervenções terapêuticas, inclusive na infância e na adolescência, "roubam" massa óssea, favorecendo a osteoporose mais tarde. Mais: que osso perdido não tem retorno, pois não há remédio para repô-lo. Por isso, a dra. Marise Lazaretti-Castro, chefe do Ambulatório de Doenças Osteometabólicas da Endocrinologia da EPM/Unifesp, assevera: "Temos que investir tudo na prevenção, e em todas as fases da vida, a começar pela infância".
 

 

Dez aos 18, o grande pico
Até os 10 anos de idade, a massa óssea é quase igual em ambos os sexos. Depois, as meninas desenvolvem-se mais rápido e ficam mais adiantadas. Na seqüência, os meninos acabam tendo mais massa óssea, principalmente por serem maiores. "O grande pico é dos 10 aos 18 anos", frisa a dra. Cynthia Brandão, do Ambulatório de Doenças Osteometabólicas da Endocrinologia da EPM/Unifesp e do Fleury.
Ao redor dos 20 a 25 anos, atinge-se o patamar máximo, que se mantém relativamente estável até a maturidade. Nessa fase, o normal é ter perda óssea inferior a 1% ao ano. Porém, ao entrarem no climatério, aos 45 a 50, as mulheres mesmo menstruando passam a perder anualmente mais de 2%, às vezes até 5% da massa óssea, devido à redução da produção estrogênica. No homem, isso acontece mais tarde, na terceira idade, e de forma não tão drástica. Conseqüência: do pico de massa óssea obtido aos 20 a 25 anos até a velhice perde-se quase metade do esqueleto, em especial as mulheres. "Formamos e reabsorvemos osso o tempo inteiro, sem parar", lembra a dra. Lazaretti-Castro. Os osteoblastos formam osso: produzem a matriz orgânica, protéica, que vai ser mineralizada e endurecer. Os osteoclastos reabsorvem-no: como os macrófagos, "comem" o esqueleto, jogando fora junto o cálcio. Com uma diferença: no início da vida, a formação supera a reabsorção; com o avançar da idade, acontece o inverso. Os osteoblastos gradativamente diminuem a capacidade produtora, enquanto os osteoclastos, não. Permanecem ativos, fazendo com que todos percam osso. Alguns menos; outros mais, com maior risco de osteoporose e de fraturas.
 
Os poucos formadores
O chamado pico de massa óssea — o máximo que cada um pode atingir — é determinado geneticamente. Porém, o resultado final é produto do equilíbrio entre fatores formadores e depletores. "A carga genética contribui com 60%; os 40% restantes são ambientais", destaca a dra. Lazaretti-Castro. "Cálcio, exercícios e estrógenos são vitais na formação do esqueleto de homens e mulheres."
O osso é basicamente "cartilagem", como a orelha e o nariz. O cálcio é que lhe dá sustentação. Os cristais de hidroxiapatita, formados de cálcio e fósforo, depositam-se nesse tecido, que, aí, endurece e fica resistente. Já o exercício é o principal estimulador ósseo, quer pela força da gravidade quer pela contração muscular, que o torna mais forte.
Os estrógenos também têm papel fundamental. E a puberdade é crítica, pois há hora certa para acréscimo de cálcio ao osso. "Meninas que entram na puberdade aos 12, 13 anos conseguem melhor massa óssea do que aquelas que só menstruam aos 15, 16", adverte a dra. Brandão. Esse padrão tardio era considerado normal até alguns anos. Hoje, o clínico deve intervir. Do contrário, chegarão aos 25 sem atingir o pico ósseo.
Dois parênteses. Primeiro: por conta principalmente dos mesmos estrógenos, a mulher, no climatério, perde muito mais osso. É que, na falta deles, os destruidores osteoclastos são mais ativados. Segundo: a que entrou em menopausa aos 45 anos tem mais chance de osteoporose do que a que entrou aos 55, que ficou mais tempo estrogenizada. Mais risco ainda a que teve menopausa precoce, ou seja, antes dos 40.
"Peso e raça também influenciam", informa o dr. Vieira. Provavelmente por fatores genéticos, os negros dos Estados Unidos possuem melhor massa óssea do que os brancos do Norte da Europa. Já os asiáticos, embora com massa óssea e compleição física menores, têm menos fraturas osteoporóticas. "Talvez o ângulo do colo do fêmur mais fechado das mulheres orientais seja um fator protetor", cogita a dra. Brandão.
Quanto ao peso, basta pegar, por exemplo, um grupo de meninos de 12 anos e conferir: os mais pesados terão mais massa óssea. O que é lógico: quanto mais carga para carregar, maior o esqueleto. Já maior altura não significa obrigatoriamente melhor massa óssea.
 
Remédios depletores
Em compensação, são muitos os fatores que levam à reabsorção do osso.
"Corticóides por tempo prolongado é uma das causas mais comuns", ressalta o dr. Vieira. Usados durante meses, até anos, em inúmeras doenças, como asma, artrite reumatóide, lupus eritematoso, certos problemas pulmonares, insuficiência renal crônica, têm efeito dramático sobre o esqueleto: atuam no metabolismo ósseo, comprometendo muito a sua aquisição. "Por um a dois meses não chega a ser tão grave, pois o organismo se recupera", diz a dra. Lazaretti-Castro. O dr. Correa afirma: "Considera-se prolongado o uso de 7,5 mg diários de prednisona por mais de seis meses".
Mas os corticóides não são os únicos remédios que "roubam" osso. Fazem o mesmo, entre outros, os seguintes:
  • Anticonvulsivantes à base de fenobarbital — Influenciam no metabolismo da vitamina D e prejudicam a massa óssea.
  • Diuréticos — Em geral, junto com o sódio, eliminam cálcio pelo rim. Por anos seguidos, essa calciúria pode produzir um balanço negativo do mineral, com perda óssea.
  • Hormônio tireoidiano — Antigamente, acreditava-se que levava à osteoporose em qualquer condição. Hoje, tudo indica que é o seu excesso. "Mas se uma mulher tem hipertireoidismo e não trata ou o faz inadequadamente, também terá perda importante de osso, que pode levar à osteoporose", previne o dr. Vieira.
  • Sedentarismo, superinimigo
    Até a natureza econômica do organismo atua a favor da perda óssea. Quando, por qualquer razão, fica imobilizado, "entende" que não precisa de muito osso, muito músculo. Vai, então, atrofiando-se e jogando cálcio fora.
    "Todas as doenças prolongadas, consumptivas, 'roubam' massa óssea", atenta a dra. Brandão. Por exemplo, câncer, AIDS, hepatopatia, pneumopatia e insuficiência renal crônicas, diabetes melito tipo 1. Com o agravante de que em várias as medicações também são lesivas ao osso, como os imunossupressores usados nos transplantados, os quimioterápicos, nos pacientes oncológicos. Especificamente nos doentes com AIDS, não se sabe se há ação direta do HIV na célula óssea. Tudo indica que estejam mais sujeitos à osteoporose por uma combinação de fatores: a doença em si, as drogas anti-retrovirais, má nutrição, imobilização.
    "Na realidade, a falta de atividade física — o famoso sedentarismo — é ruim para o osso de qualquer pessoa e em qualquer fase da vida", aproveita a deixa a dra. Lazaretti-Castro, preocupada especialmente com as crianças das grandes cidades, como São Paulo. "Por não terem espaço, estão ficando mais tempo na frente da televisão, do computador e do videogame, o que pode comprometer o futuro ósseo delas."
     
    Fumo e álcool, "ladrões"
    Potencialmente comprometedores do futuro ósseo são também o tabagismo e o alcoolismo. Sobre o primeiro, dados sugerem que tenha ação tóxica sobre o osteoblasto, acelerando o metabolismo ósseo. "Especificamente, na mulher, interferiria ainda no metabolismo dos estrógenos", informa o dr. Correa.
    Quanto ao álcool, o excesso tem ação direta sobre o osso, diminuindo sua formação. Inclusive, é uma das grandes causas de osteoporose no homem. Outras duas: uso prolongado de corticosteróides e hipogonadismo.
    Na lista dos "ladrões" importantes de ossos, figuram ainda os seguintes:
  • Hiperparatireoidismo — Aumenta muito o metabolismo ósseo.
  • Má absorção de nutrientes — Por doença ou cirurgia no aparelho digestivo.
  • Embutidos, enlatados e refrigerantes à base de cola, como Coca-Cola e Pepsi-Cola — Em excesso, prejudicam: são muito ricos em fosfato e não deixam o cálcio ser absorvido.
  • Cafeína — Também associada à massa óssea mais baixa. Não se sabe se devido à ação direta da cafeína sobre o osso ou a um estilo de vida: quem toma muito café, em geral fuma, tem vida mais sedentária.
  • Princípio do fim
    O problema é que todos esses "ladrões" vão roubando osso nas diferentes fases da vida, assintomaticamente. Até o dia em que aparece uma deformidade óssea, que pode provocar dor. Ou a pessoa cai e quebra o colo do fêmur ou o antebraço. Ou ainda, às vezes, só de espirrar fratura uma vértebra lombar. "Nesses casos, a osteoporose já está estabelecida, em fase avançada", enfatiza o dr. Correa. "O tratamento é mais complicado, só tenta evitar que a perda óssea se agrave."
    A diferença entre a fratura comum e a osteoporótica é a desproporção com o trauma. É aquela situação em que a pessoa "caiu da própria altura": estava andando, torceu um pouco o pé e fratura o colo do fêmur.
    "A fratura osteoporótica de colo do fêmur debilita muito o idoso", salienta o dr. Vieira. "Em geral, é o princípio do fim."
    Estudos mostram que 20% dos idosos que fraturam o colo do fêmur têm chance de ir a óbito no primeiro ano. Dos que sobrevivem, alguns morrem de embolia ou infecção pulmonar por ficarem meses acamados. Além disso, 40% a 50% não voltarão a ter autonomia. "Tem que se evitar a fratura a qualquer custo", assevera a dra. Brandão (veja o quadro O perigo mora em casa). A dra. Lazaretti-Castro acrescenta: "Ganhar massa óssea não é o único objetivo da prevenção da osteoporose. O que se quer mesmo é a prevenção da fratura".
     
    Em risco potencial
    O ideal é diagnosticar a osteoporose na fase mais inicial. Mulheres magras, miúdas, de pele clara, estão mais associadas à osteoporose, ao contrário das que têm sobrepeso ou origem negra. "Mas não é a verdade absoluta na nossa população", antecipa o dr. Correa. "Não dá para selecionar pelo biotipo; as aparências enganam."
    Por isso, o primeiro passo é pensar sempre na sua possibilidade em mulheres, principalmente a partir dos 40; em homens, depois dos 70. O segundo, a anamnese bem-feita. É preciso estar atento especialmente às seguintes situações:
  • História familiar de osteoporose.
  • Problema ósseo anterior não devidamente esclarecido.
  • Fratura ou deformidade que sugira perda óssea.
  • Tabagismo.
  • Alcoolismo.
  • Menopausa precoce.
  • Uso prolongado de corticosteróides, mesmo na infância ou na adolescência.
  • Distúrbios associados à osteoporose em qualquer fase da vida, entre os quais: insuficiência renal, hepatopatia e problema pulmonar crônicos, doenças intestinais de má absorção, hipertireoidismo, hiperparatireoidsmo, síndrome de Cushing, câncer, AIDS.
  • Privação prolongada de sol por problema de saúde.
  • Privação de leite e derivados por alergia ou não gostar dessas fontes de cálcio, notadamente na adolescência e na perimenopausa.
  • Composição corporal magra.
  • Pacientes com uma ou mais dessas condições merecem ser acompanhados. "O diagnóstico de osteoporose é feito com a densitometria", observa o dr. Correa. Sensível, reprodutível, é o exame que no momento dá mais informações (veja o quadro Espelho ósseo).
    Diagnóstico precoce
    As sociedades internacionais indicam a densitometria em quatro situações básicas: uso crônico de corticosteróide; hiperparatireoidismo; mulheres com baixa de estrógenos; e fratura ou deformidade óssea, sugerindo perda de esqueleto. "Porém, muito mais pacientes deveriam ter a massa óssea estudada", defende a dra. Brandão. "A análise da história familiar, das condições anteriores e atuais de saúde e do estilo de vida os identificará."
    Uma vez instalada a osteoporose, tem que se evitar perda óssea maior para prevenir fraturas. O tratamento é à base de drogas inibidoras de reabsorção óssea, que não repõe o que foi destruído. Apenas ajuda a deter o processo.
    Já em quem tem massa óssea um pouco menor, pode-se evitar que diminua mais e atinja os chamados valores osteoporóticos. É a prevenção da perda óssea. "A principal forma de restringi-la no climatério é a terapia de reposição hormonal", cientifica o dr. Correa.
    Havendo dúvida quanto à terapêutica, pode-se recorrer aos marcadores bioquímicos de reabsorção óssea para tentar saber se a paciente é uma rápida perdedora ou não. Outra estratégia: repetir a densitometria um ano depois. "Acentuada perda detectada em um ou outro exame é mais um argumento pró-reposição", esclarece a dra. Lazaretti-Castro.
     
    Proteção no climatério
    Havendo contra-indicação ou rejeição da paciente à terapia de reposição hormonal, pode-se recorrer às drogas inibidoras de reabsorção óssea. Paralelamente, recomenda-se a todas as mulheres no climatério:
  • Dieta balanceada e saudável, com parcimônia nos refrigerantes e alimentos enlatados ou embutidos.
  • Ingestão adequada de cálcio (veja o quadro O cálcio de cada dia)
  • Combater o sedentarismo, com atividade física regular (veja o quadro Mexendo o esqueleto).
  • Evitar fatores deletérios, como fumo, bebidas alcoólicas em excesso e medicações que são prejudiciais à massa óssea.
  • Não abusar do sal de cozinha. Sódio demais aumenta a excreção de cálcio pelo rim.
  • Consumir carnes em geral com moderação. O excesso de proteínas também aumenta a eliminação de cálcio pelo rim.
  • Do pediatra ao geriatra
    Esses hábitos saudáveis de vida são valiosos para crianças, adolescentes, adultos e idosos, de ambos os sexos, e devem ser estimulados por todos os médicos. "É o melhor remédio para obter ou manter ossos fortes", sentencia o dr. Vieira. "Na verdade", avança o dr. Correa, "a prevenção da osteoporose deve ser feita em vários níveis."
    A inicial, primária, é a de saúde pública, da infância à terceira idade: essencialmente estilo de vida saudável, evitando medicações que interfiram no metabolismo ósseo.
    "Tem que se oferecer todas as condições para que crianças e adolescentes atinjam o máximo de ossatura determinado geneticamente", destaca a dra. Lazaretti-Castro. Infância e adolescência são os únicos momentos em que o cálcio é acrescentado à massa óssea. Após os 20 a 25 anos, começam a perdê-la inexoravelmente. Porém, tendo um bom pico de massa óssea, chegam ao climatério e à terceira idade com um basal maior.
    "Em crianças e adolescentes com doença grave ou uso prolongado de medicamento comprometedor, é preciso intervir com mais força para reduzir a depleção e permitir que atinjam massa óssea razoável", chama atenção a dra. Brandão (veja o quadro Quando medicações e imobilização são inevitáveis).
    Assim como no climatério, essa prevenção é a da perda óssea, que deve ser considerada sempre que há risco de ela ocorrer. Outra prevenção é a da fratura em quem já tem a doença instalada. Trabalho realizado em serviços especializados de nove países da Europa mostrou que todos os tratamentos — reposição hormonal, inibidores de perda óssea, ingestão de cálcio, vitamina D — diminuíam a incidência de fraturas. Possivelmente, acredita a dra. Brandão, pelo fato de o paciente ir ao médico, preocupar-se com as quedas, beber mais leite e outros cuidados já garantem benefícios.
    Por isso, os especialistas entrevistados pelo Análise mandam um recado a pediatras, ginecologistas, pneumologistas, dermatologistas, geriatras, cardiologistas, clínicos gerais, nefrologistas, reumatologistas, infectologistas, ortopedistas, oncologistas, geriatras: ao se deparar com qualquer circunstância que possa "roubar" osso, é obrigação tomar imediatamente atitudes para evitar a osteoporose mais à frente. "Afinal, é muito mais fácil perder do que ganhar osso", arremata o dr. Vieira. "Prevenção é tudo."

     
     
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