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TERAPEUTICA
EM DIABETES
Boletim Médico do Centro BD de Educação
em Diabetes
Ano 5
N°- 27 Publicação Trimestral da BD Maio/Junho/Julho
de 2000
DIABETES
MELLITUS e INFECÇÃO
Jaime
Luís Lopes Rocha, Silmara Leite, Maria Inêz D.
Kuchiki Baptista a Clóvis Arns da Cunha
I -
INTRODUÇÃO
O Diabetes
Mellitus (DM) é uma doença muito prevalente
nas sociedades modernas, cabendo principalmente ao endocrinologista
a ao clínico geral o seu diagnóstico a correto
manejo. Vale lembrar que o DM acomete cerca de 7,6% da população
brasileira entre 30 a 69 anos de idade. Aproximadamente metade
dos pacientes desconhece o diagnóstico a 1/4 dos reconhecidamente
portadores de DM não faz qualquer tipo de tratamento
(1).
Considerando-se
a sua alta-prevalência e descaso, os médicos
devem estar preparados nâo apenas para lidar com as
intercorrências mais simples a cotidianas da doença,
mas também com as mais graves, como as infecções.
Assunto este que é constante ponto de debate a pesquisa
(2).
Ao contrário
do que se pensa, não são fortes as evidências
clínicas que sustentam a associação entre
DM a infecção 3. O que está bem definido
é uma maior incidência de infecções
específicas, muitas vezes com maiores taxas de complicações
a maior severidade. Além disso, há também
a ocorrência de alguns quadros infecciosos quase exclusivos
do diabético.
A outra
face desta situação que nâo pode deixar
de ser mencionada, são as freqüentes descompensaçôes
do paciente diabético frente aos quadros infecciosos
(cetoacidose, coma hiperosmolar...)
II
- ALTERAÇÔES IMUNOLÓGICAS
Diversos
achados laboratoriais nos ajudam a compreender essa "parceria"
entre DM a infecção (4,5).
Sabe-se que o paciente diabético apresenta:
1. depressão
da atividade leucocitária dos polimorfonucleares
neutrófilos (principalmente na presença de
acidose). Os neutrófilos apresentam-se com menor
capacidade de fagocitose;
2. alteração
na aderência, quimiotaxia e opsonização
leucocitária. O sistema imune celular apresenta uma
resposta
ineficiente a retardada aos agentes nocivos;
3. alteração
dos sistemas antioxidantes e menor produção
de interleucinas (IL-2), os quais são pontos chaves
na resposta
inflamatória necessária a uma adequada resposta
imunológica.
Já
a função humoral parece estar preservada, o
que pode ser comprovado pela resposta adequada que existe
à vacina antipneumocócica, por exemplo.
Vale ressaltar
que é sempre muito difícil estabelecer e documentar
um vínculo direto, em estudos clínicos, entre
um bom controle glicêmico e uma melhor resposta imunológica.
Isso se deve à existência de muitos outros fatores
implicados na gênese de quadros infecciosos (6).
III
- INFECÇÕES COMUNS
Trato
respiratório
Não
está bem definido se DM é um fator de risco
independente na incidência a severidade destas infecções.
Em um dos maiores estudos sobre pneumonias adquiridas na comunidade,
estabeleceu-se um "odds ratio" de 1,3 para morte
em diabéticos (7).
Entretanto, esta associação não foi confirmada
em outros estudos. O que se evidencia é uma maior incidência
de certos microorganismos em DM, como Staphylococcus aureus,
bacilos Gram negativos (BGN) e Mycobacterium tuberculosis.
Em estudos da primeira metade do século, a tuberculose
apresentava-se 3-4 vezes mais incidente em diabéticos
(8).
No caso
das pneumonias por BGN, muitas vezes ocorre uma rápida
a progressiva lesão pulmonar, levando muitos doentes
ao óbito em curto espaço de tempo.
Uma vez
estabelecido maior risco para bacteremia e maior mortalidade
por pneumonia pneumocócica, a "American College
of Physicians" recomenda que todos os pacientes diabéticos
recebam vacinas contra pneumococo e influenza (9).
Trato
urinário
Sâo
vários os estudos que demonstraram uma maior taxa de
bacteriúria em mulheres diabéticas (2-4X). A
maioria desses foi realizado antes da década de 70,
e a não deixa claro um motivo para esta associação
(10,11,12). Será
que este fato atribui-se a maior necessidade de cateterizações
vesicais, ou será a disautonomia vesical a principal
responsável? E, qual é o papel da glicosúria?
Nos casos
de infecção do trato urinário (ITU),
o quadro clínico é semelhante entre pacientes
diabéticos ou não, exceto pelo fato bem documentado
de um acometimento do trato urinário superior em mais
de 80% dos casos de ITU. Além disso, há uma
maior incidência de bilateralidade nos casos de pielonefrite
a uma maior taxa de complicações. Também
se percebe uma maior taxa de infecçôes fúngicas,
o que pode ser justificado por uma resposta celular defeituosa
às infecções por Candida albicans (13).
Entre
as principais complicações destacam-se a necrose
papilar, cujo diagnóstico é estabelecido pela
pielografia retrógrada; o abscesso perinéfrico;
pielonefrite xantogranulomatosa; cistite e pielonefrite gangrenosas.
Cerca de 1/3 dos abscessos perinéfricos ocorrem em
DM (14), devendo o médico
suspeitar deste diagnóstico, bem como da possibilidade
de pielonefrite gangrenosa, quando houver persistência
da febre por mais de quatro dias após o início
do tratamento com o antibiótico adequado (baseado em
antibiograma).
Um campo
ainda aberto para muitas pesquisas é a bacteriúria
assintomática em DM. Será que devemos fazer
exames de rotina? Devemos tratar? Qual é a melhor forma
de tratamento? Alguns trabalhos ainda em andamento tentarão
responder essas e outras perguntas, nos próximos anos.
Dados
apresentados no 9th International Congress o f Infectious
Diseases referem que cerca de 20% dos pacientes com bacteriúria
assintomática desenvolvem sintomas em até de
18 meses .
V - INFECÇÕES
"EXCLUSIVAS" DO DM
Diversas
infecções são peculiares ou muito mais
prevalentes nor pacientes com DM (tabela
1). Dentre as principais, devemos fazer algumas consideraçôes
sobre:
1.
OTITE EXTERNA INVASIVA ("MALIGNA")
A otite
externa maligna (OEM) tornou-se muito mais incomum nas últimas
décadas, porém permanece uma complicação
com alta morbidade e potencialmente fatal (15).
Esta menor incidência deve-se principalmente ao melhor
controle metabólico dos pacientes diabéticos.
Com relação
ao seu diagnóstico é imprescindível que
na presença de otalgia constante, otorréia e
perda auditiva sem febre, seja aventada a possibilidade de
infecção pela Pseudomonas aeruginosa, que é
o principal agente etiológico da OEM. Também
é importante lembrar que a paralisia facial está
presente em até 50% dos casos, acarretando um pior
prognóstico. O padrão "ouro" para
diagnóstico parece ser a
ressonância nuclear magnética (RNM) com gadolínio.
O tratamento
deve ser prolongado (4- 6 semanas) acompanhado de perto por
especialistas da área otorrinolaringológica.
(Tabela
1)
2.
MUCORMICOSE RINOCEREBRAL
Diferentes
espécies de Rhizopus, Rhizomucor e Cunninghamella são
os principais responsáveis por esta infecção
(menos comumente outras espécies podem estar associadas
- Mucor, Absidia ...). Esta patologia incomum acomete apenas
indivíduos com alguma doença grave de base,
sendo que 50% dos casos ocorrem em DM, principalmente na vigência
de cetoacidose (16).
O quadro
clínico inicial caracteriza-se por dor facial ou ocular
e obstrução nasal, com ou sem secreção.
Nesta fase já podem ser encontradas lesões necróticas
enegrecidas nas conchas nasais. A evolução do
quadro é rápida, surgindo muitas vezes a
tríade clássica: proptose unilateral com celulite;
sinusite paranasal; oftalmoplegia com cegueira.
A confirmação
diagnóstica deve ser imediata, com cultura e biópsia
(RNM), pois a mortalidade passa de 50%.
O tratamento
é sempre muito difícil e prolongado, consistindo
de uma abordagem multidisciplinar entre cirurgia de cabeça
e pescoço, infectologia e endocrinologia (tabela
1).
3.
COLECISTITE GANGRENOSA
A colecistite
gangrenosa é uma infecção intra-abdominal
grave e incomum, caracterizada pela formação
de gás dentro da vesícula biliar e por uma maior
taxa de mortalidade quando comparada aos quadros de colecistite
aguda em pacientes não diabéticos (15% versus
1 a 4%).
Cerca
de 1/3 dos casos ocorre em DM a em mais da metade das vezes
não se detecta a presença de cálculos.
Nestes casos, não estão sempre presentes sinais
de irritação peritoneal, mas pode haver a presença
de crepitação durante a palpação
abdominal, o que é um sinal patognomônico(17).
Nestes casos deve-se suspeitar da presença de enterobactérias
a anaeróbios.
É
fundamental um rápido diagnóstico para que se
proceda com colecistectomia de emergência e antibioticoterapia
de amplo espectro (tabela
1).
4.
PIELONEFRITE GANGRENOSA
Uma possível
a cada vez menos freqüente complicação
das ITU é a formação de gás no
parênquima renal, tecido perinéfrico ou sistema
coletor urinário, denominada de pielonefrite gangrenosa.
Mais de 90% dos casos ocorrem em DM(17).
A necrose papilar complica cerca de 20% casos.
Apesar
do principal agente etiológico ser a E. coli em 50-75%
casos e/ou anaeróbios, muitas vezes o paciente acaba
necessitando de nefrectomia total para resolver esta complicação.
O diagnóstico
baseia-se principalmente na suspeita clínica, (persistência
da febre após 4 dias de antibioticoterapia adequada)
a na tomografia abdominal (RX simples demonstra a presença
de ar em menos de 1/3 dos casos).
5.
PÉ DIABÉTICO
Infecções
acometendo os pés são as principais infecções
de partes moles em diabéticos. Além disso, são
também a principal causa de amputação
acarretando altíssimos custos à sociedade. É
importante citar que amputações não traumáticas
ocorrem 100 vezes mais freqüentemente em pacientes diabéticos(18).
Cerca
de 51% dos pacientes internados em enfermarias endocrinológicas
de hospitais universitários apresentam alguma forma
de pé diabético. O Hospital de Clínicas
de Porto Alegre relatou um gasto de aproximadamente R$ 7.000,00
para 21 dias de tratamento de úlcera. O Centro de Pé
diabético da Fundação Hospitalar do Distrito
Federal apresenta um gasto trimestral de R$ 31.400,00 apenas
com distribuição ambulatorial de antimicrobianos(19,20)
Os principais
fatores de risco para o desenvolvimento de úlceras
nos pés são a neuropatia diabética periférica
(diminuição da sensibilidade), desinformação,
pontos de pressão, doença vascular periférica,
história de úlceras prévias e dermatoses
comuns(21).
É
consenso geral entre endocrinologistas e infectologistas que
a principal medida no tratamento do pé diabético
é a detecção precoce, alcançando-se
mais de 90% de sucesso de tratamento das úlceras com
tratamento adequado, que inclui alívio da pressão
local, tratamento das infecções e revascularização
quando indicada(22). Uma
causa comum de falha no tratamento é o constante apoio
de peso sobre a lesão. Para evitar este problema, há
diversas formas de palmilhas anatômicas, sapatos especiais
a imobilizações (bota gessada, Scotchcast boot,
imobilização de Caville...)(22).
Outro ponto importante é o adequado debridamento de
calosidades, pois estas aumentam em até 30% a pressão
exercida sobre determinado ponto. Ainda com relação
às medidas preventivas é imprescindível
um adequado controle glicêmico para que se possa evitar
o principal fator predisponente das lesões no pé
diabético que é a neuropatia periférica.
Ao contrário
do que se poderia pensar, o diagnóstico de infecção
na presença de uma úlcera nem sempre é
uma tarefa fácil. Isto deve-se ao fato da febre, leucocitose
a dos calafrios poderem estar ausentes em até 2/3 dos
casos. Além disso, o médico deve estar atento
também a detalhes como a hiperglicemia, que é
um sinal comum a não apenas aos sinais clássicos
(secreção purulenta, crepitação,
sinais inflamatórios e flogísticos).
É
mandatório que todo paciente tenha extremo cuidado
com seus pés e faça avaliação
anual da sensibilidade com monofilamento de nylon(21,22),
daí a grande importância da equipe multidisciplinar
no cuidado do paciente diabético.
Ainda
em relação aos quadros infecciosos é
preciso ter sempre em mente a possibilidade da presença
de osteomielite. Entretanto, o diagnóstico de osteomielite
é sempre um desafio, sendo fundamental associar a avaliação
clínica com métodos de imagem. Na avaliação
clínica vale salientar alto valor preditivo positivo
do simples exame com uma pinça estéril tocando
partes ósseas(23).
Com relação aos métodos de imagem alguns
dados devem ser considerados:
- Raios-X:
nos casos de osteomielite, os sinais radiológicos
levam em média 2 semanas para se tornarem evidentes
(sensibilidade de 60%).
Pode-se
ter a presença de sinais sugestivos de osteomielite
devido à existência de osteoartropatia de Charcot.
- Cintilografia
(3 fases com tecnécio e leucócitos marcados)
a ressonância nuclear magnética são
exames com alta sensibilidade >85% (aparentemente equivalentes),
porém de alto Custo a com baixa especificidade(24).
Interessante
e polêmico estudo publicado por Eckman et al sugere
que para pacientes com DM tipo 2, na suspeita de osteomielite,
exames não invasivos são caros e podem não
trazer maior benefício ao tratamento, quando comparado
com antibioticoterapia empírica (ATB VO por 10 semanas,
baseado em antibiograma, após adequado debridamento
a avaliação vascular)(25).
Esse estudo também nos lembra que, mesmo nos casos
bem manejados a osteomielite em pé diabético
dificilmente tem índices de cura maiores que 80%.
Nos casos
de osteomielite, o melhor preditor de um bom prognóstico
é a ausência de necrose, gangrena e edema. Também
parece que tempo de DM, hipertensão, febre, tabagismo
a história de amputações prévias
não estariam associados com o prognóstico(29).
Outras
infecções de pele e tecido celular subcutâneo
de importância no paciente diabético são
as celulites, a fasceíte necrotizante e a gangrena
de Fournier.
Além
dos microorganismos citados na tabela
2, vários podem ser os envolvidos nas infecções
do pé diabético, sendo que os anaeróbios
só receberam maior atenção nos últimos
anos(26,27). Mais recentemente
é preocupante o aumento do número de casos de
infecções por patógenos multiresistentes,
destacando-se dois grupos:
- Bacilos
Gram negativos (BGN) produtores de beta-lactamase cromossômico-induzíveis:
os gêneros mais importantes deste grupo são
- Enterobacter, Serratia, Proteus e Citrobacter. As cefalosporinas
de quarta geração são preferíveis
sobre as de terceira geração por induzir à
resistência em menor proporção. Fluoroquinolonas,
aminoglicosídeos a carbapenêmicos podem ser
também utilizados, dependendo do antibiograma a gravidade
do caso.
- BGN
produtores de beta-lactamase de espectro ampliado (ESBL):
destacam-se a E. coli e a Klebsiela pneumoniae. Os carbapenêmicos
são os antibióticos de escolha.
6.
OUTRAS CONSIDERAÇÔES
Com relação
à interação entre a DM a os antimicrobianos,
deve-se fazer algumas considerações. Por exemplo,
as sulfonamidas e o cloranfenicol podem potencializar os efeitos
hipoglicemiantes das sulfuniluréias de primeira geração.
Outro fato muitas vezes esquecido é que muitos
antibióticos são diluídos em soluções
com grande carga de glicose. Além disso, também
é fato conhecido que DM tem a absorção
intramuscular diminuída. Certos antimicrobianos (Cefalosporinas,
cloranfenicol, ácido nalidíxico, isoniazida,
nitrofurantoína, tetraciclina a penicilina) podem induzir
resultados falsos positivos em determinados tipos de testes
de glicosúria(28).
No que
concerne aos recursos terapêuticos para tratamento de
infecções no pé diabético, deve-se
descartar a cefoxitina devida ao seu alto poder de induzir
a produção de beta-lactamase. Já o uso
dos fatores estimulantes de colônias de granulócitos
(G-CSF) parece promissor. Gough et al apresentaram na revista
Lancet em 1997 o uso de G-CSF diminuindo o tempo de antibioticoterapia,
o número de internamentos e o tempo de evolução
da doença, mas o seu uso ainda é muito experimental.
DM também
parece ser fator predisponente para outras infecções
como salmonelose e, em um estudo apresentado por Aleksic et
al, talvez seja uma condição não infecciosa
predisponente à meningite bacteriana comunitária.
É
imprescindível destacar a importância da experiência
clínica, da prevenção, do diagnóstico
precoce a do acompanhamento multidisciplinar para a obtenção
dos melhores resultados durante o tratamento das infecções
em pacientes diabéticos.
VI - REFERÊNCIAS
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Dr.
Jaime Luís Lopes Rocha é médico residente
do serviço de Clínica Médica Edgar Niclewicz,
e responsável pelo Centro de Diabetes do Hospital Nossa
Senhora das Graças-HNSG (Curitiba,PR). É professor
adjunto da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Dra.
Silmara Leite é médica do Centro de Diabetes
do HNSG.
Dr.
Clóvis Arns da Cunha é clínico geral
e in fectologista do HNSG a professor assistente da UFPR.
Dra.
Maria Inêz D. Kuchiki Baptista é médica
residente do Serviço de In fectologia do HNSG.
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